domingo, 16 de julho de 2023

Aquele que se esconde (1990)

 

I

Aquele que se esconde por altivo retoma 

na sua mão o véu escondido

dos olhos negros da sua branca amada

vê o coração desfazer-se supernova 

no caminho ambidextro do amor.

Trazes incenso e mirra do Oriente

e a tua pele luzidia encadeia.

Quem és tu para o meu ser tremer só de ouvir a tua voz?

Quem és tu imagem? Recipiente inócuo das metáforas lucidas que doem?

Esgravato em ti como agulha sem linha e de ti retiro

Imagens antigas, o monte Sinai, as oliveiras

Silenciosas cantatas de anjos e querubins

Que te convocam vinda de alpercatas à porta da aldeia

Onde não sabia se havia de beijar-te os pés ou sodomizar-te

E resvalei para o silêncio como um lagarto

Resvala para o lado mais íngreme

E se agarra à cauda cortada, à cauda que já não existe.

II

Amei-te tanto eu, tantos anos

Por tantos anos te amei, por tantos anos fui tua

Só tua, só tua fui e muito lamento,

Não ter sido mais tua que a sobra vaga

que o teu corpo deixa ao redor da noite

entre candelabros de tristeza e nostalgia.

 

 

 

 

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