I
Aquele que se esconde por altivo
retoma
na sua mão o véu escondido
dos olhos negros da sua branca
amada
vê o coração desfazer-se
supernova
no caminho ambidextro do amor.
Trazes incenso e mirra do
Oriente
e a tua pele luzidia encadeia.
Quem és tu para o meu ser tremer
só de ouvir a tua voz?
Quem és tu imagem? Recipiente
inócuo das metáforas lucidas que doem?
Esgravato em ti como agulha sem
linha e de ti retiro
Imagens antigas, o monte Sinai,
as oliveiras
Silenciosas cantatas de anjos e
querubins
Que te convocam vinda de
alpercatas à porta da aldeia
Onde não sabia se havia de
beijar-te os pés ou sodomizar-te
E resvalei para o silêncio como
um lagarto
Resvala para o lado mais íngreme
E se agarra à cauda cortada, à
cauda que já não existe.
II
Amei-te tanto eu, tantos anos
Por tantos anos te amei, por
tantos anos fui tua
Só tua, só tua fui e muito
lamento,
Não ter sido mais tua que a sobra
vaga
que o teu corpo deixa ao redor da
noite
entre candelabros de tristeza e
nostalgia.